11 de dezembro de 2017

Zero e trinta e oito

Felicidade.

Felicidade são os sorrisos e as gargalhadas, a espontaneidade de uma idiotice qualquer.

São as noites e copos com amigos, as conversas infindáveis, as aventuras que só acabam de manhã.

São as carícias no rosto, as borboletas no estômago, um abraço, um beijo, um escasso momento infinito no tempo.

São os orgasmos que te fazem soltar um foda-se, porque foda-se! é a melhor coisa do mundo!

É o sangue a fervilhar e o sentimento de poder que te consome no momento em que finalmente alcanças os teus objectivos que logo se somem em prol do próximo sonho que te vai fazer continuar a querer sair da cama.

A felicidade não é o que nos ensinaram quando éramos pequenos.  Não são os contos e os finais serenos e os felizes para sempre.

Felicidade é o momento em que mais nada importa. O coração pesado e a alma leve.

As loucuras, a excitação, a sensação de que tens o mundo nas mãos, de que o universo conspirou para que nada naquele momento pudesse ter corrido melhor.

São os milhares de instantes em que te esqueceste do mundo pelas mãos do mesmo alguém que muito provavelmente também já fez o teu mundo estilhaçar-se no chão.

E está tudo bem.

Porque ser feliz é estar disponível. Deixar que venha o próximo copo, a próxima conversa, o próximo beijo, o próximo foda-se!

Foda-se. A felicidade é um foda-se! e um sorriso aberto.

26 de novembro de 2017

Duas e vinte e um

Sim. Eu sou do tipo.

Fecho a porta e entreabro os lábios.

Sim. O ar calmo e profundo excita-me.
Mordisco-me e passo a língua para os humedecer.

Não. Não é sedução.
É sobrevivência.

Eu sou do tipo.
Cai a roupa e espero vida.

Anseio pelo toque, mato a sede no beijo, acordo quando me agarras e fazes o que queres.

Vivo para ti.

23 de agosto de 2016

Duas e quarenta e nove

Toda a gente paga a vida em sangue, lágrimas e suor.

Bem sei que preferias o sangue dos lábios mordidos, as lágrimas de alegria e o suor da excitação.

Mas são tão poucos os momentos. E surge-te o sangue escondido nas lágrimas por cada vez que tropeças na pessoa errada e ela sangra-te os lábios vezes a menos para a dor que te rouba enquanto se transforma apenas em mais uma desilusão.

Fosse o suor da pele salgada dela junto ao teu corpo em vez das noites mal dormidas com a consciência tolhida pelo mal que um dia te fez. E o bem que fez, mas já não faz.

E as lágrimas. Tu já mal te lembras de como te fazia chorar a rir e enchia o teu peito de luz a cada gargalhada que te arrancava. Mas ainda hoje reconheces o sabor salgado de cada lágrima que engoliste quando ela te deixou desfeito no chão.

Então esfolas os joelhos e sangras ao tentar apanhar os pedaços do chão.

E choras sempre que pegas mais num e recordas o que um dia já foi.

E suas. Porque a cada pedaço que apanhas deixas cair outros tantos e a luta parece infindável.

Mas lutas. Porque a vida se paga em sangue, lágrimas e suor.

E tu queres tanto. O sangue dos lábios mordidos. As lágrimas de alegria. O suor da excitação.

Todos no corpo da próxima mulher que talvez um dia não te parta o coração.

30 de maio de 2016

Zero e quarenta e três

Desliga.

As luzes, os ruídos, as interferências.
O telemóvel, o computador, a televisão, a merda das redes sociais. Que se foda. Desliga.

Esquece. Apaga. Desliga.

Respira.


Sente-te. Toca-te.

Ainda te lembras?

Ainda te lembras de ter consciência de ti mesmo? De sentir algo por mais de trinta segundos?
Sem imagens, sons, palavras cruzadas. Interferências.


Disrupção.

Rasga. Rompe. Desliga.

Respira.


Larga a merda da vida lá fora. Larga tudo e agarra-me. Abraça-me. Inspira. Expira. Arrepia-me.

Quero voltar a sentir. Quero sentir-te. Desliga.


Liga-me. Que se foda.


28 de junho de 2015

Dez e quarenta e sete

Não tenho jogo.

Sei que devia parar, fazer fold e agarrar-me ao pouco que me resta.

Mas não quero. Quero ignorar a consciência que berra, respirar fundo e abraçar o risco.

O dano é tão grande que já não me importa o que vem a seguir.

Vou all in. O coração que estava nas mãos desfaz-se aos meus pés.

Perdi.

18 de junho de 2015

Uma e quarenta e um

Tenho marcas na pele.

Manchas. Estrias. Cicatrizes.

Manchas que não eram minhas e se foram instalando. Que cresceram comigo como se me abraçassem, agarrassem ou beijassem o pescoço.

Estrias. Do tempo em que não havia tempo e em que tinha de haver para poder chegar ao fim da luta. Tempo em que a luta pelo sonho foi tão feroz que o corpo se esqueceu dele mesmo. Tempo que chegou ao dia em que rasguei a meta e a pele rasgou-se com ela.

Cicatrizes das pequenas e das grandes guerras. Do primeiro trabalho, do stress que libertei em mim mesma, pela mão da minha primeira grande desilusão.

Tenho marcas na pele.

Tenho marcas que se instalam em mim sem remédio e que, mesmo que eu queira, não me deixam esquecer.

Marcas que são defeito.
Marcas que são orgulho..
Marcas que na sua fealdade são o mais belo que há em mim.

16 de junho de 2015

Uma e cinquenta e sete

E então eu fecho a porta.

Só quando fecho a porta o dia acaba e a noite surge.
E então cai a roupa e arrepio-me e somente assim eu me sinto eu.

Eu não queria mais nada.
Queria só que fosse noite cerrada.

Tempo sem certos nem errados, valores ou compromissos.

Os lábios molhados.
A adrenalina.
O frio que percorre a espinha e ferve ao chegar.

O suor.
O descontrolo.

O doce da saliva, a dor e o travo do sangue.

A dor.
O gozo.

A dor.

O momento em que eu não sou eu.
E sem ser nada, sou livre, sou mais eu do que nunca.

Como pode ser errado?